Interligados#1 - Capítulo 8

Mary Ann chegou a escola uma hora e meia mais cedo. De fato, ela era a única que estava ali, o sol apenas uma sombra entre as nuvens. Boa coisa. Ela estava tremendo, despenteada. A noite toda esteve sentada em seu computador, investigando lobisomens e habilidades paranormais, repetindo para si mesma o que havia acontecido na floresta através de sua mente.

Apesar de ter imprimido centenas de páginas, não encontrou nenhuma justificativa, os temas eram tratados como ficção. Na ficção, os lobisomens eram capazes de passar de animal para homem, mas ainda assim não tinha notícias de que tinham a capacidade de introduzir suas vozes na mente humana. Mas ela sabia, sabia, que o lobo tinha falado dentro de sua cabeça.

A capacidade de fazer desaparecer um corpo era conhecida como teletransporte, e ela também sabia que Aden tinha desaparecido. Sabia que o corpo dele tinha passado para o lobo, mas não tinha saído do outro lado. Ela não imaginou isso. Seu terror foi muito real, e a sensação do lobo continuava queimando em sua mão.

Era um lobo, ok? A pergunta a atormentou durante a noite toda, na qual por sua vez, levou a culpa de comê-la para longe. Ela devia estar preocupada mais com Aden. Ele estava bem? Aonde ele teria ido? Ele retornou? Poderia retornar? Ela procurou pelo número de Dan Reeves, mas não estava na lista, então quase dirigiu até lá. A única coisa que a deteve era o pensamento de meter Aden em problema. Isso, e o medo de expressar o que havia acontecido e que lhe dissessem que ela estava delirando.

Não estou louca, pensou, caminhando diante das portas duplas pretas. Ela iria confrontar Aden, exigir respostas. Se ele aparecesse. E se ele negasse sua habilidade, ela faria... O quê? Seus ombros afundaram. Ela não sabia o que faria. Contar a seu pai ou a qualquer adulto poderia lhe render uma consulta com um dos companheiros de trabalho de seu pai e talvez uma medicação. Sabia disso na floresta, na primeira vez que o lobo falou com ela, e sabia disso agora. Seus amigos ririam dela, e talvez zombassem.

Um sedan de cor azul escuro entrou no estacionamento, e o Sr. White, o diretor, saiu com uma maleta na mão. Ele franziu o cenho quando a viu, passos curtos enquanto se aproximava. Ele era um homem velho com cabelos finos e o rosto com rugas. Seus óculos eram grossos, seu bigode grisalho.

“Você chegou cedo,” ele disse.

Ela sorriu; a ação era débil. Ela sempre tinha gostado dele porque ele sempre foi amável com ela, mas ela não podia fingir seu otimismo habitual. “Só queria sair de casa e estudar para a prova de química de hoje,” mentiu.

Seus olhos escuros cheios de orgulho. “Você quer entrar? Pode esperar no escritório.”

“Não, obrigada.” Poderia ficar ali o dia todo se fosse necessário, mas não se moveria deste lugar até que Aden chegasse. Se ele chegasse, ela não podia deixar de acrescentar novamente. Nó formou-se em seu estômago, torcendo dolorosamente. “O ar daqui me ajuda a pensar.” Quando tinha se tornado uma fraude?

“Bem, você é bem-vinda para entrar se mudar de idéia. Deixarei a porta destrancada.”

Sozinha novamente, ela renovou seu ritmo. Seu olhar continuamente desviado para a linha de árvores, buscando o lobo. Pisou duro. Não. Não o lobo. Aden. Buscando por Aden.

Passou uma eternidade antes dos professores começarem a chegar. Finalmente, os estudantes apareceram. Todos, menos Aden.

O mustang de Penny entrou no estacionamento, os pneus chiando um pouco. Sua amiga não tinha nenhuma noção das leis de velocidade e porque elas eram importantes, o que resulta em ironia já que no geral ela chegava atrasada. Várias pessoas tiveram que pular pela maneira que Penny estacionava.

Hoje Penny vestia um vestido safira que combinava com seus olhos. Olhos que estavam delineados de vermelho, Mary Ann notou. Que seu cabelo claro estava amarrado em um rabo de cavalo, como se a organização do estilo limpo e habitual tivesse tomado muita energia. Ela tinha a pele pálida, suas sardas nítidas.

Mary Ann a encontrou na metade do caminho. “Qual é o problema?” ela perguntou, a preocupação por sua amiga momentaneamente bloqueou suas preocupações sobre o lobo e Aden.

A pergunta obteve uma risada forçada. “Qual é o problema comigo? Nada. Tucker me ligou a noite e nesta manhã, queria saber se eu sabia qual é o problema com você. Disse que você agia estranha ontem depois da escola. Disse que te ligou a noite toda, mas você não atendia.”

Tucker não tinha nenhuma importância neste momento. Especialmente o novo Tucker que tinha ferido os sentimentos das pessoas e ameaçava os amigos dela. “Tucker só vai ter que esperar.” Ela olhou mais adiante de sua amiga, até as árvores, por qualquer sinal de vida.

Finalmente, foi recompensada. Shannon chegou, grande e bonito. O mundo inteiro parecia lento, a pele dela apertada sobre os ossos. Aden poderia estar perto. E não era desapontamento o que ela estava sentindo, assegurou-se. Ver o lobo deveria ser o último em sua lista de prioridades.

“Te ligo mais tarde, está bem?” ela correu, a resposta de Penny soando em seus ouvidos. Sua mochila bateu contra ela, os livros dentro quase esmagando sua costa. “Shannon,” ela chamou.

Ele a viu e abriu os olhos, um brilhante verde contra a escuridão de sua pele. Mais uma vez, os olhos a recordaram do lobo. Seu lobo. Oh Meu Deus. Ele poderia ser o lobo?

Quanto mais ela se aproximava, mais ele tentou verificar ao redor dela. Quem não poderia ser como seu lobo? Franziu o cenho, chegou diante dele, bloqueando seu caminho.

“Aden está vindo?”

Suas sobrancelhas se uniram. “Por-por que você se im-importa?”

Seu lobo não teria gaguejado também. Mas, ele também não tinha usado a boca. Deus, isto era confuso. E estranho! Visualizar uma metamorfose humana em um lobo não era normal.

No entanto, Shannon era, ou não era?

“Eu só me importo,” Ela finalmente disse. “Ele veio ou não?”

“Ele está a-atrás de mim.”

Ele reapareceu então. Isso significava que estava vivo e bem. Seu alívio foi tão grande que seus joelhos quase se dobraram. Ela sorriu enquanto dizia, “Obrigada. Muito obrigada.”

Shannon não respondeu, mas não podia ocultar a curiosidade em seus olhos quando finalmente desvio-se dela e se dirigiu a escola. Sabendo que Aden estava ali fora fez da espera muito mais difícil, mas ela esperou, ficou ali esperando até que ele fosse visto. Quando ela o viu, seus joelhos quase se dobraram de novo.

Aquele mesmo vento quente apunhalando seu peito, ali em um momento, e no próximo ela jurava que tinha sido cortada, mesmo sabendo que era o contrário. Antes, isso a tinha assustado e a fez correr. Não desta vez. Desta vez ela queria respostas. Aden não era como ninguém que ela tivesse alguma vez conhecido. Seus olhos mudavam de cor na luz, e era capaz de desaparecer em um piscar de olhos. Como isso era possível?

“Oi, Aden,” ela disse.

Os passos dele diminuíram quando ele a notou. Sua expressão se tornou vigilante, com um olhar escaneou a área atrás dela como se esperasse que alguém saltasse e o agarrasse. Alguém como o lobo? Ou um adulto? Ela olhou ao redor também. Não havia outro indício de vida, os insetos e os pássaros estranhamente quietos.

“Mary Ann.” Havia uma verocidade em seu tom que ele nunca tinha usado com ela antes. Ele parou diante dela. “O que você está fazendo aqui? comigo, quero dizer.”

O que quer que tenha acontecido com ele, não havia mudado-o fisicamente. Ele era tão alto e tão adorável com seu cabelo tingido de preto e olhos em espiral. Sem cortes, sem hematomas.

“Quero saber o que aconteceu ontem,” ela disse.

Ele lançou uma risada nervosa. “O que você quer dizer? O cachorro de alguém escapou e te assustou. Eu o afugentei e fui pra casa.”

Mentiroso! “Isso não é o que aconteceu, e você sabe disso.”

“É isso,” ele insistiu. “Seu medo simplesmente distorceu sua memória.”

Não. Não, não. Ele não ia convencê-la de que o episódio inteiro havia sido um truque de sua mente provocado pela intensidade de suas emoções. Ela dedicou muito tempo para reproduzir a cena em sua mente a noite passada. Muito tempo perguntando-se sobre aquele lobo.

“Me diga o que aconteceu, Aden. Por favor.”

Por um momento, ele não falou. Depois suspirou. “Só me deixe ir, Mary Ann.”

“Não! Uma coisa você aprenderá sobre mim, Aden. Sou obstinada ao extremo. Você me dará as respostas que eu quero ou as conseguirei de outra maneira.” Não que ela soubesse qual seria a outra maneira, mas mesmo assim.

“Bem.” O olhar dele era penetrante enquanto dava sua completa atenção. “O que pensa que aconteceu?”

Ele iria jogar esse jogo, não é? Deixar que ela dissesse sua versão dos fatos para poder adaptar seus próprio relato já pronto para assentir com ela ou desacreditá-la. Seu pai tinha usado uma técnica similar com ela muitas vezes, como no dia que ele falou sobre sexo. Diga-me o que sabe, ele disse, e depois sorriu quando ela disse.

“Olha, não disse a ninguém o que presenciei.” Ela cruzou seus braços sobre o peito. “E não direi. É nosso segredo, seu e meu. Mas você deve me dizer o que está acontecendo. Estou no meio de algo que não tenho a mínima idéia, vendo coisas que alguma vez pensei que eram impossíveis.” Ela estava balbuciando, sabia que estava, mas não podia parar. “Não sei o que fazer ou como me proteger. Na verdade, não sei do que preciso me proteger ou nem mesmo se preciso ficar preocupada.”

O olhar dele se desviou intencionalmente até a escola. “Talvez este não seja o melhor momento de discutir isso. Chegaremos tarde ao primeiro período.”

“Vamos gazear.” Ela nunca havia lançado essas palavras antes e nunca pensou em fazer isso. Na verdade, no passado, quando ao menos tinha considerado, ficou doente. Agora, tudo o que queria era falar com Aden. Nada mais importava. “Podemos ir a minha casa, meu pai está no trabalho. Teremos privacidade pelo resto do dia.”

Por um momento a expressão dele era tão torturada que ela teve que olhar para as unhas dele para certificar-se que alfinetes não estavam metidas embaixo delas. “Não posso,” ele disse. “Se eu gazear só um dia, eu... ok, olha, tenho uma confissão a fazer. Eu vivo no rancho D e M e se eu gazear, irão me expulsar. Não quero que me expulsem. Além do mais, este é meu primeiro dia. Meus professores estão me esperando.”

Ela deixou sair um suspiro de desânimo. “Então, não gazearemos. Mas iremos conversar.” Por favor, por favor, por favor.

Ele assentiu relutantemente. “Vamos. Caminharemos até a escola. Falaremos durante o caminho. Só tenha cuidado com o que disser, ok? Nunca se sabe quem, ou o quê, está escondido nas proximidades.”

Embora quisesse ficar exatamente onde estavam para evitar que a conversa terminasse antes que ela estivesse pronta, se virou e eles caminharam até a escola um ao lado do outro. Felizmente eles ainda tinham tempo antes de chegar às massas que caminham alegremente por seu dia. Como ela tinha feito uma vez, pensou.

“Não tem que começar pelo princípio, ou alguma coisa assim. Só me diga algo.” Ela suplicou.

Houve uma pausa pesada. Outro suspiro. “E se eu te dissesse que há um mundo inteiro ali fora que você não tem nem idéia que existia? Um mundo de...” – ele engoliu em seco – “vampiros, lobisomens e pessoas com habilidades inexplicáveis?”

Um mundo totalmente novo, o lobo havia lhe dito. “Eu... Eu acreditaria em você.” Mas ela não queria. Ela queria negar isso. Apesar de tudo o que tinha presenciado, apesar de que ele estava dizendo exatamente o que ela esperava que dissesse, negá-lo era seu primeiro instinto. A idéia de vampiros e metamorfos, era abominável. As pessoas com inexplicáveis habilidades que ela não compreendia ainda – mas compreenderia. Estava determinada.

“E se eu te dissesse que há um garoto que é de alguma forma um imã para essas coisas, trazendo-os para perto e mais perto dele? Um garoto com estranhos poderes para ele próprio?”

Ela umedeceu os lábios. “Esse garoto pode desaparecer em um piscar de olhos?”

Ele balançou a cabeça, um único movimento entrecortado.

“Mas eu vi...”

“Não desaparecer,” ele disse, parando-a. “Você o viu possuir o corpo de outra pessoa.”

Querido Deus. Aden podia possuir o corpo de outra pessoa. Só dar um passo para dentro deles com se fosse um elevador e ele precisasse de uma carona. Ela se estremeceu, lutando contra o impulso de sair em disparada para que ele não pudesse fazer algo como ela.

Ele ficou parado, ela percebeu, já não o vendo mais ao seu lado. Ela se virou. Ele a estava contemplando com essa expressão de tortura novamente, desta vez mesclada com medo e terror. Ele esperava que ela corresse gritando dele.

Ela não faria isso, continuava a pensar sobre nele a possuindo. Isto era simplesmente muito para assimilar. Muito, provavelmente, para uma garota que sempre confiava na ciência para explicar o desconhecido. No entanto, ele não merecia ser tratado dessa maneira. Ele estava dando o que ela queria, o que tinha exigido. O que ele não – e claramente ainda não – queria lhe dar.

Ele devia viver com medo constante de ser descoberto, aterrorizado do que as pessoas fariam se descobrissem. Esse tipo de stress havia destruído o mais valente dos homens, e o que ele esteve passando ali, imóvel, esperando, em expectativa, provava a profundidade de sua força. O que ele disse a ela nada mais do que provava a profundidade de sua amizade.

Ela suavizou sua expressão enquanto diminuía a distância entre eles. Gotas de suor brilhavam em sua testa, uma prova de seu nervosismo. Eu não terei medo dele. Eu não terei medo dele, ela gritava mentalmente. Sem aviso prévio, ela passou os braços ao redor da cintura dele, dando-lhe um abraço que queria dar desde o momento que o viu.

A princípio, ele permaneceu rígido, inflexível, depois seus braços a envolveram vacilantes. Eles ficaram assim por vários minutos, perdidos no momento. Enquanto ele a sustentava, qualquer dúvida persistente que ela tinha se desfez. Ontem ele a tinha protegido do lobisomem. Ele não queria machucá-la.

Foi ele quem se afastou, como se não confiasse em si mesmo para continuar. Sua expressão era branca, mas seus olhos... Oh, seus olhos. Eles eram castanhos desta vez. O que significava a mudança? Ela tinha tanto o que aprender sobre ele.

“Então o que me diz. Possuir corpos é tudo o que este garoto pode fazer?” ela perguntou suavemente.

Outra sacudida com a cabeça.

Então o que mais. Surpreendentemente, o medo não retornou. “O que mais?”

Ele passou os dedos pelo cabelo, e uma mecha grossa e negra caiu sobre sua testa. “Mary Ann, quanto acha que são as chances deste garoto imaginário que pode fazer coisas que os outros não podem tem passado a maior parte de sua vida arrastado de uma instituição mental para outra?”

Instituição Mental? Pobre, doce Aden. Ela poderia ser jovem, mas tinha visto quão intolerante pode ser as pessoas com aqueles que eram diferentes. Olha como Tucker tinha tratado Shannon por causa de sua gagueira. E uma gagueira não era nada comparada ao que Aden podia fazer!

“Penso que existe uma boa chance, mas isso não me faria gostar menos dele.”

Ele olhou para seus pés, escondendo sua descrença. Passou um momento. Suspirou, agarrou a mão dela, e girou em torno dela, puxando-a até a escola. “Como pode aceitar isso tão facilmente?”

“Facilmente?” ela espetou uma risada completamente desprovida de humor. “Eu fiquei angustiada durante a noite toda. Eu?...” eles estavam fingindo falar de outras pessoas, ela se recordou. “Poderia uma garota realmente escutar um lobisomem falar dentro de sua cabeça? E se não poderia, ela estava louca? Ela viu realmente um garoto desaparecer? E se não viu, estava louca? Ela tinha que aceitar o que tinha visto ou admitir que estava, adivinha o quê, louca.”

Ele apertou sua mão. Quente e forte. Reconfortante. Conforto que ela precisava tanto quanto ele, percebeu.

“O que fez com o lobo?” ela perguntou. “O que aconteceu com ele?”

“A última vez que o vi, estava vivo.” Havia uma abundante culpa em seu tom.

Por que a culpa?

“Ele te disse algo?” ela perguntou. “Mencionou porque estava me seguindo?”

“Não, e não houve tempo para perguntá-lo. No entanto, se houvesse tempo não acredito que me responderia. Não estávamos exatamente em termos amistosos quando o deixei.”

“No entanto, ele é um garoto, certo?” Arrepiou todo o corpo enquanto recordava o timbre rouco da voz dele em sua cabeça, aquele pêlo quente contra sua pele, aqueles olhos verdes pálidos observando cada movimento seu. Calafrios, não estremecimento. O que tinha de errado comigo?

“Sim. Um muito perigoso. Se ele voltar, afaste-se dele. Ele prometeu me matar.”

“O quê? Por quê?”

Finalmente eles tinham chegado à escola, e ele não foi capaz de responder. Ela soltou a mão de Aden quando um de seus colegas de classe, ela não sabia o nome, os viu e sorriu. Não estava envergonhada que as pessoas a vissem com Aden e pensassem que eles eram um casal, e esperava que ele percebesse isso. Se estivesse apaixonada por ele, estaria orgulhosa de ser sua namorada. Mas não era sua namorada, ela ainda pensava nele como uma espécie de irmão. E a simples verdade era que, as coisas não estavam ainda resolvidas com Tucker.

Tucker. O que ela iria fazer com ele?

A última vez que foi dormir, ela via o mundo em branco e preto. Um mundo em que um plano de quinze anos a conduzia a cada ação. Agora, seus olhos estavam abertos a estas vastas e vívidas cores, um quebra-cabeças que queria desesperadamente resolver, cada minuto uma surpresa que não podia possivelmente planejar. Onde encaixava Tucker nesta nova vida? Ela queria que ele se encaixasse?

Mary Ann suspirou. Parecia como se tivesse mais que lobos e habilidades secretas para descobrir.

***

Depois que pararam no escritório e pegaram um mapa, Mary Ann deu a Aden o prometido Tour pela Crossroads High. A conversa sobre o sobrenatural havia terminado no momento que pisaram no estacionamento e eram cuidadosos de não retomá-la, falando só de coisas mundanas.

Aden estava alegre pelo adiamento, embora soubesse que isso terminaria logo. Ele não estava certo do que mais diria a ela quando o momento chegasse. Não estava certo do que ela poderia perguntar. O pouco que revelou havia causado palidez e tremores nela. Ele queria sua ajuda com as almas, sim, mas...

Poderia confiar que ela não contaria a ninguém? Novamente, queria desesperadamente, e ela afirmasse que podia. Mas as pessoas, como ele aprendeu muito cedo, geralmente mentiam. Sempre te amaremos, mas isto é para seu próprio bem, sua mãe tinha dito em um bilhete. Um bilhete que ela havia deixado para ele na primeira instituição e ele leu anos depois. Seus pais nunca voltaram pelo filho que eles “amavam”. Isso não vai doer, doutor atrás de doutor havia lhe dito isso, justo antes de empurrar uma agulha em alguma parte de seu corpo.

As pessoas diriam qualquer coisa para conseguir a reação que eles desejavam. Seus pais não queriam que ele pensasse mal deles ou de sua decisão. Os médicos não queriam que ele lutasse contra eles.

Com Mary Ann, ele tinha esquecido – ou tinha escolhido passar por cima disso como o idiota que era – anos de lições aprendidas. O modo como ela o tinha abraçado... Como se ele significasse algo para ela, como se eles já fossem da família e tivessem que cuidar um do outro. Entretanto, contar a ela era o único modo de conseguir ajuda. Se ela podia ajudar, era isso.

“Cuidado.” Mary Ann o atirou para o lado.

Um grupo de atletas passou, quase arrastando ele. “Perdão, minha mente vagava.” Não era por causa das almas. Diferença de ontem no bosque, quando as tinha escutado enquanto se aproximava de Mary Ann, estavam mais uma vez inativas. Ele não entendia isso também.

Ele franziu o cenho – e quase se bateu com outra pessoa. Sua mente estava vagando novamente. Quanto tempo estava caminhando pelos corredores sem realmente vê-los.

Forçou-se a assimilar tudo. As paredes estavam pintadas de preto, dourado, e branco – as cores da escola – e cartazes onde se lia ‘Vai Jaguars’ decoravam cada extensão. Garotos corriam em todas as direções. Armários eram abertos e fechados. As garotas riam e falavam enquanto os garotos as checavam.

“A temporada de futebol começou,” disse Mary Ann. “Você joga? Quero dizer, sei que Dan jogava, então imaginei que teria os garotos do rancho treinando com ele.”

“Não. Eu não jogo, e Dan não nos permite praticar. Temos muitas tarefas.” No entanto, Aden amava assistir o jogo e odiava não poder concentrar-se tempo suficiente para experimentar de primeira mão.

“Eu sinto muito,” ela disse.

“Por quê?”

“Bem, você soou triste, como se desejasse poder jogar, mas...” ela pressionou seus lábios como se percebesse porque os esportes de contato poderiam não ser o melhor para alguém que poderia possuir outro corpo.

Ela não tinha nem idéia que isso era só parte do problema. “Acredite. Vou me recuperar.” Existiam milhares de outras coisas que ele deveria se preocupar. “O que seu namorado pensa sobre você me dar esse tour? Ele não queria que você fizesse isso, lembra?”

“Não quero falar dele.” Antes que Aden pudesse responder, ela acrescentou, “Agora me deixe ver seu horário.”

Aparentemente, ele não era o único que sabia como mudar de assunto. Tirou o papel do bolso e deu a ela.

Ela percorreu a lista com um dedo. “Temos duas aulas juntos. Primeiro e Segundo período.”

“Vai me deixar colar de suas anotações?” ele brincou.

“Talvez eu cole das suas anotações. Eu posso ter notas A, mas tenho que trabalhar com uma escrava por cada uma.”

“Deveríamos estudar juntos.”

“Como se realmente conseguiríamos fazer algo,” ela disse com um sorriso.

“Espera. Nós temos que alcançar algum objetivo? Pensei que a palavra estudar era um código para se reunir e falar.”

Outro sorriso. “Eu gostaria.”

Que normal sentir isso. E apesar de tudo o que aconteceu, percebeu que estava feliz.

O lobo queria comê-lo no seu café da manhã – e daí. Victoria, a garota que ele queria beijar com cada célula do seu ser, algum dia beberia dele – e daí. Alguém iria apunhalá-lo no coração – novamente, e daí. Ele poderia lidar com isso.

Não importa o que a vida lançaria da próxima vez, ele poderia lidar com isso.

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