Interligados#1 - Capítulo 20
Claro, o pacote de Mary Ann chegou as sete naquele dia, na última entrega do dia. Seu pai estava em casa, no escritório, provavelmente estudando minuciosamente seus apontamentos sobre Aden, tentando idealizar uma razão racional para ele ter sido capaz de declarar uma amizade com Mary Ann anos antes de realmente encontrá-la.
Ela esteve a ponto de abrir o pacote quando percebeu que Penny estava subindo as escadas.
“Ei!” Penny disse.
Mary Ann congelou.
Elas se olharam por uma eternidade, silenciosas, inseguras. Mary Ann estava evitando tão firmemente a sua amiga que eventualmente deixou de ligar pra ela, deixou de procurá-la na escola. Ou talvez Penny não estivesse lá. Infelizmente, ela não podia estar certa. Estava muito preocupada.
“Ei,” Penny disse outra vez.
“Ei.”
Penny olhou fixamente para suas mãos, os dedos entrelaçados. Ela parecia horrível. Derrotada. Quanto tempo se passou desde que Mary Ann tinha visto o brilho usual da garota?
“Como você está?” Mary Ann perguntou, não sabendo o que mais dizer.
“Poderia estar melhor. As náuseas matutinas tem sido uma merda.” Aquele tom baixo doía mais do que deveria, considerando tudo. “Meus pais querem que eu me livre do bebê.”
“E você?”
“Sim. Não. Talvez.” Um suspiro. “Não sei o que pensar. Odeio o Tucker, mas o bebê é também uma parte de mim, sabe? Eu o quero. Eu acho.”
Tucker era um demônio. Significava que o bebê de Penny levava com ele essa carga também? Ela tinha se perguntado antes, mas agora, com Penny diante dela, isto parecia não importar. “Isso é bom” sim ou não, um bebê era um bebê. Inocente e precioso.
O silêncio encontrou suas palavras, pesado, opressivo.
“Eu sinto sua falta.” Penny de repente estalou. “Quero que voltemos a ser como éramos. Eu sinto muito pelo o que fiz. Estava bêbada, mas isso não é desculpa. Eu sei muito bem. Ah, Deus, Mary Ann. Desculpa.” Lágrimas caíram por suas bochechas. “Você tem que acreditar em mim.”
Mary Ann esperou o sentimento de traição surgir, mas nunca apareceu. Por tudo o que sabia, Tucker podia ter usado seu poder de ilusão sobre sua amiga, fazendo-a mais suscetível. Além do mais, odiava ver Penny deste jeito, tão débil, tão derrotada.
“Acredito em você,” ela disse. “Não penso que podemos voltar a ser como éramos, não ainda, mas acredito em você.”
Penny considerou durante um momento, depois gemeu e correu, lançando-se contra Mary Ann. Mary Ann ofegou
Como Riley disse, todos cometem erros. Este era o de Penny, e se Mary Ann queria a garota em sua vida – e estava começando a pensar que queria, por ela também, sentia falta da amizade – ela teria que perdoar.
“Desculpe. Eu juro. Nunca mais farei nada assim outra vez. Pode confiar
“Shh. Shh. Está tudo bem. Não estou mais zangada com você.”
Penny se afastou, embora mantivesse seus braços apertados ao redor da cintura de Mary Ann. “Você não está?”
“Você é uma parte importante na minha vida. Não sei quanto tempo levarei para voltar a confiar em você, mas isso não parece impossível.”
“Eu não mereço você.” Penny golpeou o rosto com a costa da mão. “Sei que não, e sei que deveria me afastar de você e te deixar em paz, mas simplesmente não posso. Você é a melhor coisa que já me aconteceu. Você me entende de um modo que ninguém jamais me entendeu, e me odeio desde essa coisa com Tucker. Eu queria contar pra você, eu queria, mas tive tanto medo de te perder.”
“Você não vai me perder. Eu preciso de você também.” Ela via isso agora. A tensão que tinha se instalado sobre seus ombros ao ver todas as criaturas na cidade acabava de desvanecer com a presença de Penny. Assim era como Mary Ann fazia Aden – e Tucker – sentir? “Além do mais, você me fez um favor. Precisava tirar Tucker da minha vida. Você me deu um empurrão para fazer isso.”
Isto mereceu uma risada chorosa. “Ele é um idiota, não é?”
“Sem a menos dúvida. Ele pretende te ajudar...?”
Penny balançou a cabeça antes que Mary Ann pudesse terminar a frase. “Ele me deixou saber que não queria nada comigo ou com a criança.” Seu queixo tremeu e a umidade em seus olhos outra vez caiu. “Estou por minha conta.”
“Bem, você tem a Tia Mary Ann. Eu nunca estive próxima de crianças, mas estou disposta a aprender.”
Ela foi premiada com outro sorriso, este recordava à velha Penny. “Eu tenho que voltar. Estou de castigo por ser uma puta, como minha mãe diz, mas quero me encontrar com você logo. Eu quero conversar.”
“Absolutamente. Quero ouvir tudo sobre o bebê.”
Penny alisou levemente seu protuberante ventre, algo que Mary Ann não tinha notado antes. “Eu te amo, garota.” Ela beijou sua bochecha e se afastou, caminhando mais leve do que quando chegou.
Mary Ann a observou até que ela desapareceu dentro de casa.
Que dia.
Ela abriu o pacote com impaciência, desejando que Aden, Riley e Victoria estivessem com ela, então poderiam compartilhar este momento juntos. Mas ela ainda não tinha notícias dos dois últimos, e não queria entrar em contato com o primeiro sem ter notícias de seus outros amigos.
Quando leu a certidão de nascimento de Aden, fez uma nota do hospital onde ele nasceu – St. Mary – o nome de seus pais – Joe e Paula Stone – assim como a data do aniversário – 12 de dezembro. Engraçado. Seu aniversário era em 12 de dezembro também.
Depois, leu rapidamente sua própria certidão depois. Sacudindo a cabeça. Olhou fixamente. As palavras nunca mudaram. Ela recuou, tropeçando. Isto não estava certo. Não podia estar certo. Nunca pensou em perguntar a seu pai onde tinha nascido, mas ela também nasceu
Tudo de repente fazia sentido. Como podia se parecer com a mulher que a criou, mas não ser sua filha biológica. Como seu pai teria duas mulheres.
O calor aconchegante que a preencheu enquanto estava falando com Penny apagou completamente, deixando um profundo abismo cheio de raiva. Mary Ann tinha problemas para respirar quando entrou no escritório de seu pai, cada um de seus membros tremendo. Estava fazendo um som em seus ouvidos enquanto o sangue corria, batendo contra o crânio.
Ele levantou o olhar, a viu e imediatamente deixou cair o diário que segurava, o preocupação profunda nas linhas ao redor de seus olhos. “Qual é o problema, querida?”
Esperar para falar com seu pai até que ele não pudesse escapar dela e mandá-la embora não era uma opção. Ela tinha que obter a verdade. Agora. “Explique isto.” gritou, atirando a certidão de nascimento na mesa dele.
Ele olhou para a certidão e congelou, deixou de respirar, seu peito não se movia mais. Durante algum tempo, agonizantes batidas do silêncio se seguiu. “Onde você conseguiu isto?” ele perguntou suavemente.
“Não importa. Por que não me contou que Tia Anne é minha mãe, e ainda mais, que você tinha a irmã dela me criando como se fosse dela?” ele nunca contou, nunca sequer insinuou que aquela que era sua Tia, e a que nunca conheceu, e supostamente tinha morrido antes de seu nascimento, na verdade era sua mãe biológica.
Seu pai deixou cair a cabeça entre suas mãos levantadas. Ele ficou assim, curvado, durante muito tempo. Silencioso, aflito. Finalmente, disse “Eu não queria que você soubesse. Ainda não.”
“Mas você vai me contar. Certo. Agora!” isso era uma ordem não uma pergunta. Fúria e mágoa borbulhavam tão violentamente dentro dela que ela não podia permanecer ali. Ela passeou pela sala de um lado para o outro, os pés escavando o carpete, pisando na madeira. Era como se toda a extensão do céu estivesse abaixo de sua pele agora mesmo, fazendo-a mais que humana, fazendo-a infinita, enquanto ela olhava para todo mundo em baixo, vendo cada coisa claramente pela primeira vez em sua vida.
“Por favor, sente-se. Deixe-me falar sobre isso como seres humanos racionais.”
Ela era qualquer coisa menos racional neste momento. “Ficarei de pé. Você fala.”
Ele fez um suspiro estremecido. “Realmente importa, Mary Ann? Carolina era sua mãe de qualquer modo, exceto biologicamente. Ela te amou, te criou, abraçou você quando estava doente.”
“E eu a amei por isso, ainda amo. Mas mereço saber a verdade. Mereço saber sobre minha verdadeira mãe.”
Com outro suspiro, ele caiu de costas contra a cadeira. Apoiou o cotovelo no braço da cadeira e recostou a têmpora em uma das mãos. Ele estava pálido, as veias azuis visíveis abaixo de sua pele. “Eu pretendia dizer isso a você, eu pretendia. Mas queria fazer quando você fosse mais velha. Preparada. E se você não gostar do que escutar? E se, uma vez que saiba, desejar que eu nunca tivesse contado?”
Como ele se atreve! “Pare de tentar me manipular. Eu posso não ter um diploma, mas li os livros de psicologia que você me deu. Não sou algum paciente que pode convencer a acreditar como você faz, e depois enviar para seu caminho. Sou sua filha e mereço o que sempre me prometeu. Honestidade.”
Uma vez que absorveu suas palavras, ele assentiu. “Muito bem, Mary Ann. eu direi a você. Honestamente. Só espero que esteja pronta.”
Ele fez uma pausa, claramente esperando para que ela lhe dissesse que não estava. Quando não disse, ele brevemente fechou seus olhos como se rezasse por orientação.
“Eu namorei sua mãe, Carolyn, a mulher que te criou,” ele disse, “enquanto estava na escola secundária. Eu tinha dezessete anos. Pensei que a amava. Até que fui até a casa dela e conheci sua irmã mais nova, Anne. Ela tinha dezesseis anos, a idade que você tem agora, e foi amor a primeira vista. Para nós dois. Eu parei de sair com Carolyn imediatamente. Anne e eu não estávamos nos vendo – isso poderia magoar Carolyn, e ambos a amávamos a nossa maneira. Mas não podíamos permanecer afastados um do outro e logo estávamos namorando em segredo.”
Mary Ann se deixou cair na cadeira, diante da mesa. Embora ela ainda fosse uma bagunça de turbulentas emoções, suas pernas já não a sustentavam. Isto era muito para assimilar.
“Devo continuar?”
Ela assentiu. Muito para assimilar, mas precisava escutar o resto. Por que ela nunca suspeitou? Ela nem sequer tinha uma foto de Anne em seu quarto. Mal tinha dado a mulher, sua própria mãe, um pensamento passageiro ao longo dos anos.
“Quanto mais tempo passava com Anne, mais percebia que ela era um pouco... diferente. Ela costumava desaparecer por horas e afirmar...”
O fôlego de Mary Ann parou. “Ela afirmava que tinha viajado para uma versão mais jovem de si mesma.”
Os olhos dele se alargaram, ele assentiu. “Como você... Aden,” ele disse entre dentes. “Ele tem alimentado suas mentiras, eu vejo.”
Não. Aden foi o único que lhe tinha dito a verdade. “Isto não é sobre ele. Isto é sobre você e as mentiras que tem alimentado durante anos. E acredito que ambos sabemos, no fundo, que Aden não estava mentindo.”
“Pensei que tinha deixado claro que não quero que você saia com esse garoto, Mary Ann. Ele é perigoso. Era perigoso quando criança, batendo em outros pacientes, nos guardas, e é perigoso como adolescente. Precisa de prova pra isso? Fiz algumas investigações. Você sabia que ele está vivendo em D e M. Todo mundo sabe que aqueles garotos são mau presságio. Mantenha-se afastada dele.”
“Você não vai me dizer o que tenho que fazer neste momento!” Ela bateu seu punho contra a cadeira. “Eu o conheço, melhor do que você alguma vez o conheceu, e ele não me machucaria. Neste exato momento, acredito que eu o conheço melhor do que a você.”
Ele ficou pálido. “As pessoas podem confundir você. Ele...”
“Ele sabia que eu o encontraria um dia. Inclusive disse isso a você. Mas você, em sua teimosia, não acreditou nele. Depois de sua experiência com Anne, é a única pessoa, o único médico, que deveria ter dado a Aden, uma oportunidade para mostrar que dizia a verdade. No entanto, estava tentando desacreditá-lo, mesmo agora, quando a evidência o apóia.”
Seu pai fez um resmungo desdenhoso. “Uma vez que ele tinha o seu nome, tudo o que precisava fazer era procurar mais tarde. Encontrar pessoas não é difícil hoje em dia.”
Então essa era a razão para convencer a si mesmo. E ela uma vez pensou que ele fosse o homem mais inteligente do planeta. “Então ele esperou cinco anos para me encontrar, somente para te assustar? Ele sabia o nome do meu namorado antes que eu começasse a sair com o garoto, foi uma coincidência, certo?” ela riu sem humor. “Pare de rodeios e me diga sobre minha mãe. Ou então me ajude, irei subir, fazer a mala e ir embora. Nunca voltará a me ver.”
Ele abriu a boca para protestar, depois fechou. Ela nunca o ameaçou desse jeito, então ele não tinha maneira de saber se ela realmente faria isso. Ela também não saberia. Louca como estava, pensou que poderia ser capaz de fazer.
Ele lhe deu um rígido assentimento. “Anne ficou grávida quando ela ainda estava na escola. Sua família ficou chateada, Carolyn mais que todos, e com razão. Anne terminou por abandonar os estudos, e nos casamos. O único consolo era que ela deixou de desaparecer uma vez que estava grávida de você. Pensei que a maternidade a tinha mudado. Estávamos muito felizes naqueles dias apesar do casamento relâmpago. Então, sua mãe começou a fica fraca. Ninguém sabia o por que. Ela estava muito fraca, de fato, pensávamos que perderia você. Mas não perdeu. Ela sustentou. Depois você nasceu e Anne... ela... ela... morreu, imediatamente depois. Os médicos não podiam explicar isso. Ela não tinha nenhuma condição que a colocasse em alto risco e não tinha se debilitado mais, mas no momento em que coloquei você nos braços dela, ela só de alguma forma se afastou de nós.”
Ele tinha feito o certo se casando com sua mãe biológica, a quem tinha amado. Apesar de tudo, Mary Ann estava orgulhosa dele por isso. Tucker não estava fazendo o mesmo por Penny. Não é o que muitos adolescentes fariam.
Seu pai limpou a garganta, o queixou tremendo. “Alí estava eu, esse garoto de dezoito anos com um bebê para criar sozinho. Como sabe, nenhum de seus avós são as pessoas mais apoiadoras, por isso não queriam ter nada haver conosco. A única pessoa que me ajudou foi Carolyn, mas de novo, os pais dela me odiavam, me culpavam da desgraça de Anne e de sua eventual morte. Então nós te criamos juntos. Ela sempre quis se casar, ainda me amava, então eu casei, me casei com ela.”
“No entanto nunca deixei de amar Anne, e Carolyn sabia. Eu não a merecia, mas ela ficou comigo. Eu lhe devia tanto e ela te amava como se você fosse dela. Ela tinha medo de que se você soubesse, não a amaria mais, que também iria amar mais a Anne. Prometi que não contaria a você, e até agora, cumpri com minha palavra.”
Tantas coisas fazem sentido agora. E, no entanto, todo seu mundo desmoronou ao seu redor, deixando de existir, construindo-se com algo diferente, algo estranho. Verdade agora, mais que mentiras.
Ela acabava de perdoar uma amiga por traição, e agora enfrentava outra traição. De alguém que achava que devia protegê-la de todas as coisas, alguém que a tinha encorajado a dizer sempre a verdade, não importava quão dolorosa fosse.
Mary Ann pressionou as pernas que ainda não queria sustentá-la. “Vou subir e arrumar minha mala. Não estou fugindo,” ela assegurou a seu pai quando ele deu um salto. “Eu só preciso de um pouco de tempo. Ficarei com um amigo. Tenho que fazer isto, e você me deve isto.”
Seus ombros caíram. Ele estava com trinta, mas neste momento, parecia um ancião consumido sobre a borda da morte. “Que amigo? E quanto à escola? E quanto ao trabalho?”
“Eu ainda não sei, mas não se preocupe. Não vou perder um dia de aula. Trabalho, no entanto, vou ligar para dizer que estou doente.” E não seria uma mentira. Nunca esteve tão deprimida.
“Leve o carro, pelo menos.”
“Não, eu...”
Ele levantou a mão, interrompendo. “Leve o carro ou fique aqui. Essas são suas únicas opções.” Ele colocou a mão em sua mesa, retirou a chave e estendeu para ela.
Ela deixou escapar e teve que agachar-se para recolhê-la. Seus músculos estavam protestando tão violentamente que quase não podia se sustentar.
“Leve isto também.” Ele disse. Abriu a gaveta de sua mesa. Desta vez tirou um diário amarelo. “Foi de sua mãe. Anne.”
Durante todo este tempo, ele tinha algo de sua mãe, sua verdadeira mãe, e tinha guardado dela. Ela pegou com uma mão trêmula, querendo odiá-lo. Em silêncio, saiu do escritório e foi para seu quarto arrumar a mala. Sua mochila estava mais leve que o normal, já que normalmente estava cheia de livros ao invés de roupa, mas estava mais pesada do que nunca.
Enquanto ela se afastava, a casa na qual tinha vivido a maior parte de sua vida desvanecendo pelo espelho retrovisor, lágrimas corriam por suas bochechas, quentes e incessantes. Ela chorou pela mãe que nunca conheceu, pelo pai que pensava ter conhecido, e pela inocência que uma vez a tinha rodeado.
Queria culpar seu pai por tudo, mas não podia, não depois de ler entre as linhas da história dele. Ela podia muito bem ter matado sua mãe.
Como Aden, sua mãe era capaz de viajar no tempo. Isso significava, que também como Aden, sua mãe possuía uma habilidade sobrenatural. Mary Ann neutralizou essas habilidades. No momento da concepção, sua mãe parou de viajar no tempo. Isso era um fato. Durante os nove meses que ela esteve no útero de sua mãe, ela a enfraqueceu, drenando sua força pouco a pouco. Também um fato. E então, no momento de seu nascimento, sua mãe simplesmente deixou de existir. Por causa ela?
Ela dirigiu por horas, lutando por manter-se sob controle – e perdendo. O diário zombava dela. Ela deu voltas na vizinhança, depois passou por D e M, e parando, mas percebendo que estava muito sensível para entrar, depois voltou para sua própria vizinhança. A lua estava cheia, dourada. O trânsito estava diminuindo com o passar dos minutos, assim como o número de pessoas trabalhando em seus jardins ou simplesmente relaxando do lado de fora. Mas enquanto os que ficavam nas sombras, esperando para sair? Ela tinha medo da resposta.
Ela viu o lobo correndo ao lado do carro a poucos quilômetros de sua casa. Reconheceu o pêlo negro, os brilhantes olhos verdes, e foi para o acostamento. Foi bom ter parado. As lágrimas estavam borrando sua visão. Pior ainda, tinha um soluço preso na garganta, um que ela não podia se desfazer. Estava ali, rasgando sua caixa vocal, afiado e queimando, como se estivesse coberto em ácido.
EEssppeerree ppoorr mmiimm, Riley disse a ela dentro de sua mente.
Ela não podia. Precisava dele, mas também precisava ficar sozinha. E mais que tudo, precisava... ela não sabia o quê. Escapar, esquecer. Mary Ann saltou do carro e começou a correr. Correndo do que tinha descoberto, fugindo da dor e da incerteza. As lágrimas continuaram a cair. O lobo começou a perseguição, as patas batendo no chão.
Ele a alcançou e pulou em suas costas, lançando-a ao chão. Ela ficou ali, sem respirar e incapaz de se mover. ÉÉ ppeerriiggoossoo aaqquuii ffoorraa, ele disse na sua mente. VVoollttee ppaarraa oo ccaarrrroo.. AAggoorraa.
Ele tinha razão, ela sabia disso, mas ficou onde estava, soluçando, sufocando-se. A cálida língua dele acariciando sua bochecha, no canto de seu olho.
PPoorr ffaavvoorr,, MMaarryy AAnnnn.. VVooccêê nnããoo qquueerr eennffrreennttaarr uumm dduueennddee.
Ela assentiu e ficou de pé, depois volto tropeçando para o carro. Ele não saltou como ela esperava, mas trotou até umas árvores próximas. Só uns poucos minutos passaram antes que ele reapareceu em sua forma humana. Usava uma camiseta amassada e uma calça folgada, ambos obviamente colocados a toda pressa. As dobradiças rangeram quando ele entrou, e depois o som da trava quando ele se sentou.
“Desculpe se te machuquei lá atrás.” Ele disse. “Como eu disse, os duendes estão lá fora esta noite e não queria que capturassem sua essência. Meus irmãos estão rastreando-os, e não queria que você estivesse na mira deles também.”
Ela girou para ele. “Onde você esteve?” As palavras eram um grito, ardendo dela, seguidas rapidamente por outro soluço. Seu corpo inteiro tremeu com isso, sem parar, só crescendo na intensidade até que ela estava de novo asfixiando-se, com náusea, perdida na tristeza e na raiva. Consigo mesma, com seu pai.
“Ei, Ei” Riley disse, pegando-a do banco e colocando sobre seu colo, “Qual é o problema, meu amor? Me diga.”
Meu amor. Ele a tinha chamado de meu amor. Isso era tão maravilhoso, tão receptivo, embora isso a fizesse chorar muito mais forte. Entre soluços, contou o que descobriu. Ele a acariciou o tempo todo, acalmando-a com as mãos, da mesma forma que ela tinha feito com Penny. E então ele a estava beijando, com os lábios dele contra os seus, sua língua quente, doce e selvagem, seus dedos enterrado entre os cabelos dela.
Por um momento as luzes os iluminaram quando um carro passou e eles congelaram. Mas a momentânea escuridão os envolveu de novo, estavam se beijando de novo. Isso, também, era maravilhoso e lindo e mais quente do que ela já tenha feito antes. Suas mãos estavam enterradas no cabelo dele, as dele nos seus. Eles estavam pressionados um contra o outro, imersos um no outro. Ela se sentia segura, mesmo estando mergulhada na sensação, nele; não queria que isso terminasse nunca. Ela queria continuar, enquanto ele mais uma vez dizia a ela o que fazer.
“Temos que parar,” ele ofegou.
Claramente eles não estavam na mesma sintonia. “Não quero.” com as mãos dele rodeando-a dessa forma, ela não tinha que pensar, só podia senti-lo e a felicidade de estar com ele.
Seu polegar acariciou a bochecha dela. “Confie em mim. É o melhor. Nós estamos em um carro e em área aberta. Mas podemos – terminaremos – isto depois.”
Embora ainda quisesse protestar, ela assentiu.
“Agora, para onde você estava indo?” Ele perguntou, sua preocupação retornando.
Depois de um profundo e estremecido suspiro, ela disse. “Tão logo conseguisse manter minhas emoções sob controle, estava indo ao rancho onde vive Aden. Estava indo de alguma forma tirá-lo de lá e levá-lo onde os pais dele vivem. Ou costumavam viver. Eu lhe disse que nascemos no mesmo hospital e no mesmo dia?”
“Não.” A cabeça de Riley se inclinou para um lado e suas mãos, que ainda estavam rodeando-a, pararam e deixaram de traçar círculos nas costas dela. “Isso é estranho.”
“Eu sei.”
“É significativo. Tenho certeza.”
“Eu concordo. Isso não pode ser uma simples coincidência. Depois de visitarmos os pais dele, quero ir ao hospital onde ele – nós – nascemos.”
“Eu irei com você. Victoria está indo ao encontro de Aden agora. Podemos pegá-los.” Ele abriu a porta e saiu, facilmente levando-a com ele, depois caminhou ao redor e a sentou do banco do passageiro. “Eu dirijo.”
Quando ele ficou atrás do volante, ela disse, “Aonde foram quando nos separamos? Eu estava preocupada.”
O motor rugiu facilmente e entrou na agora, estrada vazia. Ele conduzia tão facilmente que era como se o carro fosse simplesmente uma extensão dele. “Eu tive que ajudar Victoria com um problema. E me desculpe, meu amor,” ele acrescentou, entrelaçando seus dedos e levando suas mãos até os lábios. “Ainda não posso dizer qual é o problema. Victoria não disse a Aden e ele deve ser o primeiro a saber.”
“Entendo.”
“Você entende?”
“Claro.”
Ele olhou para ela, seus olhos escurecendo, seus lábios levemente inchados e vermelhos – provavelmente reflexos dos dela. “Você me surpreende. Qualquer outra pessoa estaria lançando um monte de perguntas ou acusações sobre mim, esperando que me rendesse.”
“Não é meu estilo.” Ou não era até hoje. As pessoas revelavam seus segredos quando estivessem prontas. Pressionar só abria um passo para a amargura. E quanto aos segredos de seu pai, pode ser que ele não estivesse pronto para revelá-los e pode ser que ele se ressentisse com ela mais tarde, mas ela não podia induzir-se a se importar. Nunca tinham pertencido realmente a ele.
“Pelo que importa, seu pai ama você,” Riley disse, claramente captando a linha de seus pensamentos. “Isso faz de você uma garota de muita sorte. Eu não tenho pais. Eles morreram não muito tempo depois do meu nascimento, então fui criado pelo pai de Victoria, que acredita que os garotos devem ser guerreiros, a fraqueza não é algo para ser tolerado. Aprendi a lutar com todo tipo de armas aos cinco anos, e matei meu primeiro inimigo aos oito. E quando era ferido...” Vermelho cobriu suas bochechas. Ele afastou o olhar dela e limpou a garganta. “Não havia ninguém que me amparasse, ninguém que me beijasse e me fizesse sentir melhor.”
Ela faria isso, decidiu. De agora em diante, estaria aqui para consolá-lo. Como ele tinha feito com ela esta noite. Como Carolyn feito por ela. Saber que ele tinha suportado uma infância tão terrível só intensificava seus sentimentos por ele. Nunca ter recebido um abraço ou não ter alguém para lhe dar tapinhas na cabeça e lhe dizer o quão maravilhoso ele era, era um crime. Forçá-lo a lutar, era ainda mais.
Apesar das mentiras, ela percebeu que tinha sorte de ter tido sua infância, seus pais.
“Você me surpreende,” ela disse. E ele gostava dela. Ele tinha admitido isso, a tinha beijado. Que significava isso para eles, de fato? “Você acha que... você poderia... alguém como você alguma vez... você sabe, namorar alguém como eu?”
As mãos dele pressionaram o volante, seus nódulos ficando sem cor. “Não. Lobisomens vivem muito mais do que os humanos, então namorar um deles é considerado o epítome da estupidez.”
“Oh.” Ela não escondeu seu desapontamento. Ela tinha esperança. E estava parecendo ousada por está sendo estúpida.
“Mas encontraremos uma forma de dar certo,” Ele disse.
“Oh,” ela disse outra vez, mas desta vez estava sorrindo.
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