Interligados#1 - Capítulo 1
Um cemitério. Não. Não, não, não! Como ele veio acabar aqui?
Claramente, carregar seu iPod enquanto fazia reconhecimento de uma nova cidade tinha sido um erro. Especialmente em Crossroads, Oklahoma, possivelmente a capital mundial do gnomo de jardim e definitivamente o inferno na Terra, era tão pequena e praticamente inexistente.
Se ele simplesmente tivesse deixado o iPod no Rancho D e M, uma casa de recuperação para adolescentes “rebeldes”, onde ele vivia. Mas ele não deixou. Ele queria paz, só um pouco de paz. E agora pagaria o preço.
“Que droga,” ele murmurou, retirando os fones dos ouvidos e empurrando a brilhante distração verde para dentro da mochila. Ele tinha dezesseis anos, mas às vezes sentia como se tivesse estado por aí eternamente, e cada um desses dias era pior que o anterior. Lamentavelmente hoje não seria exceção.
Imediatamente as várias pessoas que ele vem tentando afundar, tão alto que sua orelha sangrava, ouvindo Life of Agony clamaram por sua atenção.
FFiinnaallmmeennttee!! Julian disse dentro da cabeça dele. EEuu eessttiivvee ggrriittaannddoo pprraa vvooccêê ddaarr aa vvoollttaa ppoorr,, ttiippoo,, sseemmpprree.
“Bem, você deveria ter gritado mais alto. Começar uma guerra com os mortos-vivos não era o que eu queria fazer hoje.” Enquanto ele falava, Haden Stone – conhecido como Aden porque, quando criança, ele aparentemente não era capaz de pronunciar seu próprio nome – recuou, tirando os pés da linha que delimitava o cemitério. Mas era tarde demais. Na distância, em frente a uma lápide, a terra estava tremendo, rachando.
NNããoo mmee ccuullppee,, Julian contestou. EElliijjaahh ddeevviiaa tteerr pprreevviissttoo iissssoo..
EEii,, uma segunda voz disse. Essa também veio da cabeça de Aden. TTaammbbéémm nnããoo mmee ccuullppee.. NNaa mmaaiioorriiaa ddaass vveezzeess,, eeuu ssóó sseeii qquuaannddoo aallgguuéémm vvaaii mmoorrrreerr..
Suspirando, Aden deixou cair sua mochila, curvou-se e escondeu na palma da mão as adagas que ele mantinha presas em suas botas. Se alguma vez ele fosse pego com elas, seria levado de novo para o reformatório, onde as brigas eram tão regulares quanto o almoço era servido, e fazer um amigo de confiança era tão impossível quanto escapar daquele lugar. No fundo, entretanto, ele tinha aprendido que levá-las valia a pena o risco. Sempre valia a pena o risco.
MMuuiittoo bbeemm.. ÉÉ mmiinnhhaa ccuullppaa,, Julian resmungou. NNoo eennttaannttoo,, nnããoo éé ccoommoo ssee eeuu ppuuddeessssee eevviittaarr..
Isso era verdade. Os mortos só o sentiam quando despertavam. No qual, como agora, que geralmente envolvia Aden acidentalmente colocando os pés na terra do cemitério. Alguns sentiam mais rápidos do que outros, mas todos eles eventualmente se levantavam.
“Não se preocupe com isso. Nós estivemos em situações piores.” Mas do que ter deixado o iPod em casa, ele pensou, deveria ter prestado atenção no mundo ao seu redor. Depois de tudo, ele estudou um mapa da cidade, e já sabia quais áreas tinha que evitar. Mas enquanto a música ecoava em seus ouvidos, tinha perdido a trilha ao seu redor. Ele estava momentaneamente liberado, convenientemente sozinho.
A lápide começou a tremer ruidosamente.
Julian suspirou, o som um eco de Aden. EEuu sseeii qquuee ssuuppoorrttaammooss ppiioorr.. MMaass eeuu ccaauusseeii eessssaass ppiioorreess ssiittuuaaççõõeess ttaammbbéémm..
FFaabbuulloossoo.. UUmmaa ffeessttaa ddee ppiieeddaaddee.. Esta terceira, frustrada voz pertencia a uma mulher – que também se meteu e tomou lugar em sua cabeça. Aden só foi surpreendido por sua outra ‘convidada’ – como às vezes ele pensava das almas presas dentro dele – não começariam a falar também. Paz e tranqüilidade não eram algo que nenhum deles entendia. PPooddeemmooss ddeeiixxaarr aass ffeessttiivviiddaaddeess ppaarraa mmaaiiss ttaarrddee,, ggaarroottooss,, ee mmaattaarr oo zzuummbbii aanntteess qquuee eellee ffiinnaallmmeennttee lleevvaannttee,, ggaannhhaannddoo tteerrrreennoo ee cchhuuttaannddoo nnoossssoo ttrraasseeiirroo ccoolleettiivvoo??
“Sim, Eve,” Aden, Julian e Elijah disseram ao mesmo tempo. Essa era a maneira dela. Ele e os outros três rapazes brigavam e Eve os parava, uma formidável figura-materna sem um dedo para apontar, mas uma formidável figura-materna do mesmo jeito.
Se apenas a maternidade fosse o bastante para resolver a situação nesse momento.
“Eu só preciso que todos se calem,” ele disse. “Ok? Por favor.”
Não houve mais queixas. E isso era quão silencioso quanto às coisas que conseguiria.
Ele forçou-se a concentrar. A alguns metros de distância, a lápide estava balançando pra frente e pra trás antes de cair ao chão e quebrar. Chuva tinha caído nesta manhã e havia gotas de água espalhadas em todas as direções. Punhados de terras se uniram a elas, voando pelo ar quando uma asquerosa mão cinza abria caminho para a liberdade.
Dourada luz solar fluía do céu, destacando a pele revelada, o músculo podre... Até mesmo os vermes rastejando em torno das juntas alargadas.
Um fresco. Ótimo. O estômago de Aden revirou. Ele poderia vomitar quando isso tiver acabado. Ou durante.
EEssttaammooss aa ppoonnttoo ddee ffuummaarr aaqquueellee iiddiioottaa!! ÉÉ rruuiimm qquuee eeuu eesstteejjaa eexxcciittaaddoo aaggoorraa??
E aí estava Caleb, a voz número quatro. Se ele tivesse um corpo próprio, Caleb poderia ter sido o cara que tira fotografias das garotas no vestuário enquanto se escondia nas sombras.
Quando Aden olhou, esperando o momento certo para atacar, uma segunda mão revelada se juntava a primeira, estirando-se para levantar o resto do decomposto corpo da terra. Ele verificou a área. Estava em um caminho cimentado, no alto de uma colina, árvores exuberantes ajudavam a formar um caminho e bloqueá-lo de olhos curiosos. Felizmente, a área da grama e as lápides pareciam desertas. Mais a frente era uma estrada onde vários carros passavam serpenteando, seus motores zunindo suavemente. Mesmo que os motoristas fossem curiosos e falhassem em prestar atenção no tráfico, eles não seriam capazes de ver o que se passava lá embaixo.
Você pode fazer isso, ele disse pra si mesmo. Você pode. Você já fez isso antes. Além do mais, garotas gostam de cicatrizes. Ele esperava. E tinha muitas pra mostrar.
“Agora ou nunca.” Decidido, ele seguiu adiante. Deveria correr, mas não tinha pressa para tocar a campainha de partida. Além disso, esses encontros sempre terminam da mesma maneira, sem importar com a seqüência dos eventos. Aden machucado e quebrado, doente pela infecção da saliva contaminada dos cadáveres. Ele se estremeceu, já imaginando os dentes amarelos o agarrando e mordendo.
Normalmente a batalha dura só alguns minutos. Mas se alguém decidia visitar um ente querido durante esse tempo... Independente do que acontecesse, ele não poderia ser visto. As pessoas assumiriam que ele era um ladrão de túmulos ou de cadáveres. Ele seria arrastado para qualquer centro de detenção que esse buraco de cidade oferecesse. Ele sempre foi marcado com um delinqüente inútil, exatamente como foi marcado em qualquer outra cidade em que viveu.
Teria sido bom se o céu escurecesse e a chuva caísse novamente, dando-lhe proteção, mas Aden não tinha essa sorte. Nunca tinha.
“Sim. Eu deveria ter prestado mais atenção aonde ia.” Para ele, passa por um cemitério era a epítome da estupidez. Um único passo sobre a propriedade, como hoje, e algum morto despertava, faminto por carne humana.
A única coisa que queria era um lugar privado para relaxar. Bem, tão privado quanto um cara com quatro pessoas vivendo em sua cabeça conseguisse.
Falando de cabeças, uma espreitou exatamente agora – passando pelo buraco, balançando para a esquerda, para direita. Um olho estava despencando o branco ramificado com vermelho, enquanto que o outro tinha desaparecido, revelando o músculo por baixo. Grandes manchas de cabelo faltando. Suas bochechas estavam fundas, o nariz estava pendurado por alguns fios.
A bílis queimou o estômago de Aden, ameaçando curvá-lo. Seus dedos apertados ao redor dos cabos de suas lâminas, e finalmente acelerou seu passo. Quase... Lá... Aquele rosto desfigurado cheirou o ar, obviamente gostando do que cheirava. A saliva tóxica negra começou a gotejar de sua boca e sua luta para a liberdade aumentou. Os ombros apareceram. Um torso rapidamente seguiu.
Uma jaqueta e uma camisa em torno dele, rasgadas e sujas. Um homem, então. O que fazia com que ficasse mais fácil. Às vezes.
Um joelho se lançou na grama, dois.
Perto... Mais perto... De novo, ele aumentou seu ritmo.
Aden o atingiu quando ele estava de pé na altura total, um pouco mais de um e oitenta, no qual os colocava na altura dos olhos. Seu coração bateu em seu peito, uma batida frenética. Respirando bolhas em seus pulmões, escaldando em sua garganta. Fazia mais de um ano que ele tinha feito isso, e da última vez tinha sido a pior de todas. Ele precisou de dezoito pontos de um lado, carregou um gesso na perna durante um mês, passou uma semana em desintoxicação, e tinha feito uma doação de sangue involuntária para cada corpo no Park Funerário de Rose Hill.
Não desta vez, ele disse a si mesmo.
Uma explosão de rosnados saiu dos lábios arruinados da criatura faminta.
“Olhe o que eu tenho”. Aden sustentou a lâmina, e a prata brilhou na luz. “Bonito, não é? Que tal olhar mais de perto, humm?” O braço surpreendentemente estável, ele o alcançou e golpeou, indo para o pescoço. Para matar um cadáver – permanentemente – a cabeça tem que ser removida. Mas justamente antes do contato, o cadáver ganhou sua dimensão, como Eve havia temido, e esquivou. Aparentemente, o instinto de sobrevivência era algo que nunca morria. A faca de Aden zuniu através do ar vazio, seu impulso o fez gira.
Um punho ósseo empurrou sua cabeça em direção ao chão, e logo ele se encontrou comendo terra. Imediatamente um grande peso caiu sobre ele, esmagando seus pulmões. Dedos envolveram suas mãos e apertaram, e ele soltou as lâminas. Felizmente – ou não – aqueles dedos estavam asquerosamente molhados e não poderia manter um aperto forte para mantê-lo parado.
Não, eram os dentes em seu pescoço que o subjugava, mastigando até suas artérias. A língua molhada sugando. Por um momento, ele esteve muito dolorido para se mover, queimando, morrendo, despertando, queimando mais um pouco. Então instantaneamente se concentrou – ganhar, tenho que ganhar – e usou o cotovelo para quebrar as costelas do demônio.
Isso não o moveu.
Claro, seus companheiros tinham que comentar.
WWooww.. EEssttáá ffoorraa ddee pprrááttiiccaa oouu oo qquuêê?? Caleb disse.
EEssmmaaggaaddoo ppoorr uumm ppéé eettiiqquueettaaddoo,, Julian brincou. VVooccêê ddeevveerriiaa eessttáá eennvveerrggoonnhhaaddoo..
VVooccêê qquueerr sseerr oo jjaannttaarr?? Elijah acrescentou.
“Pessoal?” ele gritou, sua luta aumentando. Ele conseguiu rolar de costas. “Por favor. Estou lutando aqui.”
EEuu nnããoo cchhaammaarriiaa eexxaattaammeennttee iissssoo ddee lluuttaa,, Caleb respondeu. MMaass ccoommoo sseerr eessppaannccaaddoo ccoommoo uummaa ggaarroottaa..
EEii!! EEuu ssoouu aa eexxcceeççããoo aaqquuii..
DDeessccuullppee,, EEvvee..
NNããoo ssee pprreeooccuuppee.. EEuu ppeegguueeii iissssoo..
SSuuppoonnhhoo qquuee vveerreemmooss ssoobbrree iissssoo,, Elijah disse com raiva.
Aden tentou apertar o pescoço da criatura, mas ela continuou se movendo, continuou puxando de seu agarre. “Fique quieto,” ele ordenou enquanto golpeava a bochecha com toda a força que restou em seus músculos, mas isso não o enfraqueceu. Na verdade, a ação lhe deu mais força. Aden teve que segurar com as duas mãos para evitar outra mordida.
“Vocês mais do que ninguém, sabem que não é dessa maneira que eu vou morrer.” As palavras se romperam com a força de sua respiração ofegante.
Há aproximadamente seis meses atrás, Elijah previu sua morte. Eles não sabiam como iria acontecer, somente que aconteceria. E não seria em um cemitério e seu assassino não seria um cadáver. Não, ele morreria em uma rua deserta, com uma faca em seu coração, a ponta cortaria o órgão cada vez que ele pulsasse, até que a vida lhe escapasse completamente.
A horrenda premonição veio no mesmo dia que lhe disseram que ele seria enviado para o Rancho D e M, logo que abriu. Talvez isso devesse tê-lo detido de vir até aqui. Mas...
Ao mesmo tempo, ele começou a ter visões de uma garota de cabelos escuros. De falar e rir com ela... De beijá-la. Elijah nunca antes previu nada que não fosse uma morte, então Aden ficou surpreso por saber – ou especialmente, com esperança – que essa garota algum dia entraria em sua vida. Surpreso, mas entusiasmado. Ele queria conhecê-la realmente. Estava desesperado para conhecê-la, na verdade. Mesmo se isso significasse vir para cidade de sua morte.
Uma morte que aconteceria muito em breve, ele sabia. Na visão, ele não estava muito mais velho do que agora. De qualquer forma, teve tempo para lamentar sua própria morte, e até mesmo teve tempo para aceitar seu destino. Às vezes, como agora, parte dele até mesmo esperava por isto. Isso não significa que ele deveria deitar e pegar qualquer morto-vivo querendo comer.
Alguma coisa tocou sua bochecha e ele piscou para focalizar. Incapaz de colocar seus dentes amarelos ao alcance, o cadáver agora estava arranhando-o profundamente. Isso foi o que ganhou permitindo outra distração.
VVooccêê ppeeggoouu iissssoo?? DDee vveerrddaaddee?? BBeemm,, pprroovvee,, Julian disse, o desafio provavelmente, direcionado para lhe dar força.
Rugindo, Aden alcançou uma de suas adagas caídas. Exatamente nesse momento o corpo escapou de seu controle, ele atacou. A adaga atravessou o osso... E ficou preso. Inútil.
Não havia tempo para pânico. Faminto como estava e indiferente a dor, seu oponente fez outra jogada em direção a sua garganta.
Aden lançou outro golpe. Houve um rosnado, outra cravada de dentes, e um fluxo de saliva negra e espessa, saliva do cadáver com a boca em sua bochecha, fazendo sua pele chiar. Ele lutou, engasgando com o cheiro fétido.
Quando uma longa, molhada língua emergiu, avançou em direção ao rosto de Aden, ele outra vez, agarrou o cadáver pela mandíbula, afastando-o enquanto se atirava para sua outra faca. Poucos segundos depois de seus dedos se enroscarem com o cabo da faca, ele começou a cortar o pescoço.
Crack.
Finalmente, a cabeça se separou do corpo e caiu no chão com um baque. Os ossos e as roupas esfarrapadas, de qualquer jeito desmoronaram em cima dele. Fazendo careta, ele os afastou e lutou para limpar manchas de grama.
“Aí. Comprovado.” Ele, também, esmigalhado.
EEssssee éé nnoossssoo ggaarroottoo,, Caleb disse orgulhosamente.
SSiimm,, mmaass aaggoorraa nnããoo éé oo mmoommeennttoo ppaarraa ddeessccaannssaarr,, Eve acrescentou, e ela estava certa.
“Eu sei.” Ele tinha que limpar essa bagunça, ou alguém iria tropeçar com os restos do túmulo profanado. Os noticiários voariam como moscas, pedindo para toda cidade ajudar a localizar o mal, procurando a pessoa responsável. Mais, outros iriam se levantar, sem importar ele estando aqui ou não. Precisava está preparado pra eles. Mesmo que ele esteja ali, entrecerrando os olhos em direção ao céu, machucado, o sol brilhando nele, drenando a pouca energia que lhe restava.
No final do dia, o veneno da saliva vai ter trabalhado através de seu sistema e ele vai estar apoiado no vaso sanitário, seu cereal nada mais que uma afetuosa memória. Ele estaria suando profundamente por causa da febre, agitando-se sem controle e rezando pela morte. Aqui, agora, no entanto, ele tinha um momento de descanso. Era o que ele estava procurando o dia todo.
PPaarraa cciimmaa ee ppaarraa eelleess,, qquueerriiddoo,, Eve insistiu.
“Eu irei, prometo. Em um minuto” Aden não conhecia sua verdadeira mãe, seus pais o entregaram para o estado quando tinha três anos de idade, então ele gostava – às vezes – que Eve tentava preencher o papel. Na verdade, ele a amava por isso. Ele amava. De fato ele amava todas as quatro almas. Mesmo Julian, sussurrador de cadáver. Mas todos os outros garotos do mundo podiam se afastar de sua família para um pouco de tempo “pra mim”. Eles podiam fazer coisas que outros garotos de dezesseis anos faziam. Coisa tipo... Bem, coisas. Eles podiam namorar e assistir as aulas na escola e fazer esportes. Ter diversão.
Não Aden. Nunca Aden.
Qualquer coisa que ele fizesse, qualquer coisa que ele quisesse, tinha uma audiência. Uma audiência que gostavam de comentar, criticar e oferecer sugestões. Na próxima vez faça isso. Na próxima vez faça aquilo. Idiota, você deveria ter feito isso.
Eles querem o bem, ele sabia disso, mas Aden nem sequer beijou uma garota ainda. E não, a linda morena das visões de Elijah não conta. Não importa o quão real sinta aquelas visões. Mas Deus, quando ela vai chegar? Ela deveria chegar?
Só ontem, ele teve outra visão dela. Eles estavam parados na floresta, a Lua alta e dourada. Ela jogou seus braços em volta dele e o abraçou apertado, seu hálito quente acariciando o pescoço dele.
“Eu protegerei você,” ela disse. “Eu sempre protegerei você.”
Do quê? Ele havia se perguntado desde então. Obviamente de nenhum cadáver.
Ele deu um suspiro, então fez uma careta. Oi, fedorento. O cheiro de podridão parecia estar preso dentro de seu nariz. Provavelmente estava. Teria que se esfregar com uma esponja de aço da cabeça aos pés.
Livrou-se da adaga que ainda segurava e limpou as mãos no jeans, deixando marcas do veneno. “Que vida, huh?”
SSee vvooccêê qquuiisseerr sseerr ttééccnniiccoo,, iissttoo rreeaallmmeennttee nnããoo éé ccuullppaa nnoossssaa,, Julian disse, obviamente não está disposto a assumir a culpa. VVooccêê ffooii oo úúnniiccoo qquueemm nnooss aabbssoorrvveeuu nneessssaa ssuuaa ccaabbeeççaa ggrraannddee..
Aden, apertou os dentes. Isso parecia com semelhante aviso que recebia umas mil vezes por dia. “Eu já te disse. Eu não absorvi vocês.”
VVooccêê ffeezz aallgguummaa ccooiissaa,, ppoorrqquuee tteemmooss cceerrtteezzaa ddee nnããoo tteerrmmooss nnoossssooss pprróópprriiooss ccoorrppooss.. NNããoooooooo.. NNóóss eessttaammooss pprreessooss ccoomm vvooccêê.. EE sseemm bboottããoo ddee ccoonnttrroollee!!
“Para sua informação, eu nasci com você nadando em minha mente.” Pelo menos ele pensava assim. Eles sempre estiveram com ele. “Não é como se eu pudesse parar o que aconteceu. Seja o que for que tenha acontecido. Até você não sabe.”
Só uma vez ele gostaria de um momento de paz total. Sem vozes na sua cabeça, sem mortos se levantando para comê-lo – ou qualquer uma dessas coisas sobrenaturais que tem que lidar diariamente.
Coisas como Julian acordando os mortos e Elijah prevendo a morte de qualquer um que passe por ele. Coisas como Eve levando-o até o passado, para uma versão mais jovem dele mesmo. Um movimento errado, uma palavra errada, e ele poderia mudar seu futuro. Nem sempre para melhor. Coisas como Caleb forçando-o a possuir o corpo de outra pessoa só com um toque.
Só uma dessas habilidades já o teria excluído. Mas todas quatro? Ele estava em uma estratosfera diferente. Algo que ninguém, especialmente os garotos do rancho iriam deixá-lo esquecer.
Mas apesar de não se dar bem com eles, não estava pronto para ser despachado tão cedo.
Dan Reeves, o homem que dirigia a D e M, não era tão mal. Era um ex-jogador de futebol que tinha abandonado a prática devido a uma lesão nas costas, mas ele não havia renunciado a disciplina, o modo de vida pelo livro de regras. Aden gostava de Dan, mesmo pensando que Dan não entendesse o que era ter vozes falando dentro de sua cabeça e competindo por atenção que ele não podia esperar para dar. Mesmo que para Dan, Aden precisava passar seu tempo lendo, interagindo com os outros, ou pensando em seu futuro ao invés de “agitando e perambulando.” Se ele apenas soubesse.
UUhh,, AAddeenn?? Julian disse, trazendo-o de volta a realidade.
“O quê?” Ele respondeu. Seu bom humor deve ter morrido com o cadáver. Ele estava cansado, dolorido, e sabia que as coisas só iriam piorar.
Era só outro dia na vida de Aden Stone, ele pensou com um amargo sorriso.
OOddeeiioo sseerr aaqquueellee qquueemm ttee ddiizz iissssoo,, mmaass...... EExxiissttee mmaaiiss..
“O quê?” mesmo falando, ele escutou quebrar outra lápide. Então outra.
Outros estavam de fato se levantando.
Ele manteve suas pálpebras abertas. Por um momento, e apenas por um momento, ele não respirou. Só fingiu que era um garoto comum e que sua única preocupação era o que comprar para sua namorada de aniversário.
Onde estava a morena? Ele se perguntou. Quando era seu aniversário?
AAddeenn,, qquueerriiddoo,, Eve falou.. VVooccêê aaiinnddaa eessttáá ccoonnoossccoo??
“Ainda aqui.” Para ele, concentrar-se era o equivalente a contar até infinito, e Eve sabia disso. “Eu odeio isso. Estou no limite, e estou ou indo me jogar ou chutar alguém no...”
LLiinngguuaaggeemm,, AAddeenn.. Eve disse estalando a língua em desaprovação.
Ele suspirou. “Chutar alguém no traseiro e forçá-los a cair,” ele concluiu de forma adequada.
EEuu ddeeiixxaarriiaa vvooccêê ssee eeuu ppuuddeessssee,, mmaass eessttoouu pprreessoo,, Julian disse, solenemente.
“Eu sei.” Seu estômago protestou e as feridas em seu pescoço queimavam com a tensão enquanto ele se agachava. A dor não o impediu; e, também, irritou-se e a ira lhe deu forças. Ele viu quatro pares de mãos abrindo caminho na sujeira, arrancando a grama e os ramos de flores deixados por seus entes queridos.
Ele acertou um com uma de suas adagas. A outra ainda estava no pescoço do primeiro cadáver, e tinha que forçar para liberá-la. Ele esteve hesitante em lutar no começo, mas agora estava irritado o bastante para correr descontraído neste momento.
Além do mais, só havia um jeito de controlar quatro ao mesmo tempo... Estreitando os olhos, lançou-se para o cadáver que estava mais perto dele. O topo da cabeça acabava de emergir. Era completamente calvo. Sem pele restante. Um esqueleto vivo, o tipo de coisa que faz ter pesadelos.
VVooccêê ppooddee ffaazzeerr iissssoo,, Eve encorajou.
Levanta os braços... Volta... Espera... Espera... Finalmente, seus ombros estavam à vista, dando a Aden a tela que ele precisava para trabalhar sua mágica. Ele golpeou, em um movimento fluído restituindo a morte... Ao Morto. De novo.
“Desculpa,” ele sussurrou. Não que ouvisse ele. No entanto, o fez se sentir melhor ao dizer isso.
UUmm aabbaaiixxoo,, Julian disse.
Aden já estava correndo até o próximo túmulo. Ele não diminuiu quando chegou, só levantou seu braço e cortou.
“Desculpa,” ele disse de novo enquanto o recente cadáver caía. A cabeça em um lugar e o corpo em outro, seus ossos se separaram no impacto.
EEssssee éé oo jjeeiittoo,, Elijah elogiou.
O instinto estava finalmente ativo. Suas mãos estavam encharcadas, suor escorria de seu rosto e peito, e enquanto ele se apressava até o terceiro, um túmulo destroçado, seu orgulho se mesclou com culpa e tristeza. Selvagens olhos vermelhos o assistiam.
DDeevveerrííaammooss sseerr ppaaggooss ppoorr ffaazzeerr eessttaass ccooiissaass,, Caleb disse, cada palavra gotejava com excitamento. Evidentemente, ele estava entusiasmado. De novo.
Um gemido soou atrás de Aden em uma fração de segundos antes que o peso do esqueleto se apoiasse contra sua costa e dentes afiados afundassem em seu ombro, rasgando sua camisa, sua pele e ferindo o músculo. Estúpido! Estúpido! Ele tinha perdido um.
Ele gemeu, impulsionando-se para o chão. Outra mordida, mais veneno. Depois, mais dor.
Ele alcançou por cima do ombro, agarrou o demônio pela clavícula e o empurrou. Em vez de tirar a carcaça de cima dele, sua mão arrancou um pedaço de cordão e osso. Uma mulher no seu tempo. Não pense sobre isso. Ele hesitou, e esta hesitação custaria a ele.
Aqueles dentes se agarraram em sua orelha, jorrando sangue.
Ele apertou seus lábios para cortar o grito. Deus, aquilo doía. Alcançando a as costas mais uma vez, ele conseguiu agarrar o pescoço desta vez. Mas pouco antes dele sacudir, o cadáver caiu ao chão, imóvel, e quatro vozes dentro de sua cabeça começaram a gritar, como se houvesse dor, depois desaparecendo... Desaparecendo... Silêncio.
Franzindo o cenho em confusão, Aden rapidamente balançou o corpo caído sem vida de um lado para outro e caiu aos seus pés. Seu pescoço, ombros e orelha latejavam e ardiam enquanto ele dava a volta e olhava para baixo.
O cadáver não se movia. Embora a cabeça ainda estivesse atada ao corpo, mas não havia nenhum movimento.
Ele girou em círculos, olhando fixamente, catalogando, procurando. O outro cadáver, aquele que ele estava correndo para encontrar, também estava caído, apesar do fato de ainda possuir cabeça, e agora permanecia imóvel. Inclusive a luz de seus olhos havia desaparecido.
Ok. O que diabos havia acontecido?
Estranhamente, nenhum de seus companheiros tinha um comentário sarcástico.
“Pessoal?” ele disse.
Ainda sem resposta.
“Por que vocês estão...” as palavras falharam. À distância, alcançou um vislumbre de uma jovem garota e se esqueceu de tudo. Ela estava vestindo uma camisa branca listrada, calça jeans desbotada e tênis, passeando em frente ao cemitério. Ela era alta e magra com cabelos castanhos lisos, presos em um rabo de cavalo, pele bronzeada e um bonito – muito bonito – rosto. Ela tinha fones nos ouvidos e parecia está cantando.
Todo esse cabelo escuro... Ela era... Ela poderia ser a garota das visões de Elijah?
Aden ficou de pé em seu lugar, coberto com lama e sujeira, confuso, excitado, e tentando não entrar
Não olhe, não olhe, por favor, não olhe. Ele rezava para si mesmo, as almas ainda estranhamente quietas. E, no entanto, parte dele queria que ela olhasse, que o olhasse, para estar tão intrigada por ele como ele estava por ela. Se ela fosse a garota que ele vê nessas visões... Finalmente...
Ela quase passa por ele. Logo desapareceria dobrando a esquina. E então, como se ela sentisse seu desejo secreto, lançou um olhar sobre seu ombro. Aden ficou tenso, alcançando um vislumbre de grandes olhos cor de avelã e lábios rosados que ela não conseguia parar de mastigar.
Ela verificou a área.
E segundos depois, seus olhos se encontraram. Havia uma explosão de sons e o mundo repentinamente zumbiu para eles – e então nada. Não houve nenhum movimento. Não havia batidas de coração, nem mesmo eles enchiam seus pulmões de ar. Não existia nem ontem ou amanhã, só aqui e agora.
Eles eram as duas únicas pessoas que existiam.
Isto era paz, Aden pensava
Então, tudo explodiu. Havia outra explosão de sons, como se o mundo focasse em expandir-se desta vez. Os carros começaram a ficar presos no trânsito, os pássaros gorjeavam e o vento sibilava através das árvores. Uma afiada rajada bateu nele e o lançou para trás. Ele aterrissou com um baque. Queixo chocando-se com seu esterno.
O mesmo vento deve ter pego-a, porque ela tropeçou de bunda com um uivo.
Havia pontadas de náusea em seu estômago, e enquanto ele se levantava seus braços estavam pendurados, perdidos e pesados. A necessidade de correr até ela o preenchia – seguido rapidamente por uma necessidade de correr dela.
Ela confusamente ficou de pé. Depois deu outra olhada em silêncio, virou-se e apressou o passo, logo desaparecendo de vista.
No momento
Caleb gemeu, QQuuee iinnffeerrnnoo??
DDoorr.. EEssccuurriiddããoo,, Eve disse, a voz tremendo. HHoorrrríívveell..
Eles estão machucados? Como pode almas sem corpos sentir dor? “O que vocês querem dizer?” ele perguntou a eles, mesmo suspeitando parte da resposta. A garota. De alguma forma, de algum jeito. Aquele estranho silêncio quando seus olhos se encontraram pela primeira vez... Aquela estranha rajada de vento...
Ela se aproximou e os mortos caíram. As vozes dentro de sua cabeça desapareceram. Ela olhou pra ele e a paz que ele havia apenas sonhado o envolveu. Ela foi e boom, tudo foi jogado de volta para a terrível vida.
Ele tinha que experimentar a paz de novo. Ela poderia ser a responsável? Era ela aquela por quem ele estava esperado?
Temendo que os cadáveres se levantassem de novo, ele apressou-se em remover as duas cabeças restantes. Mas ao invés de limpar a bagunça, escondendo as evidências do que aconteceu, encontrou-se pegando a mochila e correndo atrás dela. Só havia uma maneira de descobrir se ela tinha feito o que ele pensava que ela fez. Só uma forma de descobrir quem exatamente era ela.
CCaarraa,, nnooss ddiiggaa oo qquuee aaccoonntteecceeuu ddeeppooiiss qquuee ccoommeecceeii aa ggrriittaarr,, Julian disse.
“Não sei o que aconteceu. Não exatamente.” Verdade. Ele também estava determinado a encontrar a verdade. “Vocês estão bem?”
Múltiplos disparos de NNããoo!! Soaram pra fora.
VVoollttee ppaarraa ccaassaa,, tteennhhoo uumm mmaauu pprreesssseennttiimmeennttoo ssoobbrree iissttoo,, Elijah disse, soando mais assustado do que Aden jamais ouviu.
Aden desacelerou. Elijah teve “mau pressentimento” antes, e não eram realmente previsões, Aden sempre tinha prestado atenção quanto a isso. Mas se está fosse a única oportunidade de conhecer a morena das visões?
“Vou ser cuidadoso. Eu prometo.” Ele disse.
Aden localizou a garota um quarteirão do cemitério. Outra vez uma forte rajada o empurrou, as náuseas retornaram em seu estômago e então o mundo ao seu redor se converteu naquilo que sempre sonhou. Silêncio, seus próprios pensamentos.
Querido Senhor. Ela era a responsável.
Suas palmas começaram a suar. Ela virou a esquina, dirigindo-se a um cruzamento movimentado. Ele enfiou suas mãos na mochila e tirou seus lenços umedecidos, acelerando seus passos e limpando o rosto o melhor que podia. Tirou uma camisa limpa e caminhou para dentro das sombras, então se trocou, sem tirar seu olhar da garota.
Ela correria gritando se ele se aproximasse? Depois de tudo, ossos estavam empilhados ao redor dele.
Ele esperou que seus companheiros atirassem as respostas, mas tudo permanecia quieto. Era estranho, não ter alguém lhe dizendo o que fazer, como fazer, ou o quão mal as coisas poderiam terminar. Estranho e estranhamente agonizante, quando ele pensou por anos que isso seria legal de uma forma esquisita.
Pela primeira vez em sua vida, ele estava verdadeiramente por conta própria. Se ele estragasse isso, não teria ninguém, exceto a si mesmo para culpar.
Ele enquadrou os ombros e preparou-se para se aproximar da garota.
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